Esse post busca ajudar a aumentar ou incentivar o interesse de pesquisadores sobre nosso tema em xeque, RPG nas escolas. Não busco provar que o RPG realmente é um método de ensino eficiente mas buscar padrões entre o RPG e pesquisas sobre o desenvolvimento cognitivo.
Aumentar a atenção do aluno, com relação ao tema, fazê-lo viver determinado problema e educar de forma interativa e divertida são alguns dos elementos que o RPG Educacional propõe-se a trabalhar. Mas será que tais elementos, novidade e interação, realmente ajudam no processo cognitivo do individuo?
Uma pesquisa feita por Daniela Fenker e Hartmut Schutze (pesquisadores de Neurobiologia da Universidade de Otto von Gueiricke de Magdeburgo), apresentada na revista Mente e Cérebro n: 146, juntou dois grupos de participantes aos quais expôs uma série de imagens, tendo figuras comuns (ja conhecidas pelos participantes) e figuras inéditas nunca vistas pelos participantes antes. No primeiro grupo mostraram as imagens comuns e inéditas. Já o ao segundo grupo foram apresentadas apenas imagens já vistas pelos participantes. Resultado: o primeiro grupo, de sujeitos se lembraram melhor das fotos do que no segundo. Os pesquisadores perceberam então que em um contexo com grande valor de inovação aumentava a capacidade retentiva da memória, como se ao perceber a novidade, algumas regiões do cérebro entrassem em alerta.
Nosso cérebro é um órgão que está ansioso por captar novas informações e compreender o mundo, uma vez que precisa constantemente dar sentido à realidade a fim de guiar as nossas ações. Não podemos nos esquecer que a evolução do cérebro não aconteceu em um meio em que leitura e escrita eram necessárias para sobrevivência. Nosso cérebro evoluiu e por um acaso permitiu que fôssemos capazes de perceber e analisar padrões, mudando a forma como utilizamos objetos do meio a nosso favor e também compreender aqueles que conviviam na mesma comunidade. Mais tarde desenvolvemos a escrita e leitura como uma forma de manter a longo prazo tudo aquilo que não eramos capazes de reter em nossa mente.
Antes mesmo de resolvermos aprender algo, nosso cérebro está constantemente analisando o mundo a nossa volta em busca de possíveis ameaças. Para isso analisa os objetos em movimento conferindo constantemente sua posição e deslocamento. O menor sinal de mudança ativa os nossos neurônios e muda o foco da nossa atenção. Outros sentidos também são utilizados para conferir se os elementos físicos e químicos permanecem estáveis ou mudam de estado. Nós não precisamos decorar tudo a nossa volta, tão pouco veê-los, basta perceber apenas o que é necessário. É por isso que o nosso cérebro é programado para armazenar informações que serão úteis no futuro e permitir que o restante passe sem registro.
Algumas pesquisas sugerem que para reduzir o gasto no processo da percepção, o cérebro cria diversas rotinas que são constantemente checadas pelos nossos sentidos, caso seja percebido algo diferente, a reação normal será a de dar certa preferência a esse detalhe. Caso não perceba nada novo, o cérebro mantem a série de eventos já antes reconhecida como sendo verdade. Muitas vezes nossos sentidos falham em perceber detalhes, e sem essa informação o nosso cérebro simplesmente ignora aquele evento usando o anterior ou o mais óbvio como verdadeiro, criando assim uma ilusão.
Para consolidar na memória determinado fato ou evento é preciso de um extenso processo de recordação e automatização, ou que ocorra uma grande carga emocional. Já que a memória de curto prazo ou de “trabalho” é como um texto em um quadro de avisos, constantemente apagado e atualizado pelas próximas tarefas. O hipocampo, estrutura neural, localizada nos lobos temporais, com forma similar à de um cavalo-marinho -daí a denominação: hippos = cavalo, kampi = curva- funciona como um “detector de novidades”: compara informações com os registros já existentes e, caso haja algo novo, envia uma espécie de alerta para outras áreas cerebrais, para que fiquem atentas e apreendam o estímulo. Uma vez deflagrado o estado de prédisposição para aprender, outros dados apresentados serão captados com maior facilidade.
Em 2003, Shaolmin Li e seus colegas no Trinity College em Dublin, Irlanda, descobriram que a liberação de dopamina no hipocampo de ratos de laboratório facilita a memorização de longa duração, um fortalecimento duradouro da ligação entre as células neurais – ou seja, das sinapses. Nesse processo, impressões sensoriais ativam continuamente o processamento sináptico entre certos neurônios por um longo periodo. Com isso, os contatos entre as células se fortalecem, possibilitando a gravação do conteúdo da memória por longo prazo.
Depois de consolidadas, as memórias de longo prazo são armazenadas pelo cérebro como grupos de neurônios, preparados para disparar juntos no mesmo padrão criado pela experiência original. Memórias “inteiras” dividem-se em componentes (sensações, emoções, pensamentos, etc.), cada um sendo armazenado na área do cérebro que a iniciou. Grupos de neurônios no córtex visual, por exemplo, decodificam uma imagem. A descarga simultânea de todos esses grupos constrói a memória em sua totalidade.
Note que quando confrontado com o desconhecido, nosso cérebro empenha-se para que lembremos não apenas da novidade mas também das circunstancias que envolvem o fato. O cérebro humano ao que tudo indica parece estar ajustado para recordar especialmente de coisas que fujam do comum. É bem provavel que você se lembre do cofrinho amostra de um colega ou a baba formada na boca do professor ao invés do conteúdo relevante numa aula. (E é bem provavel que você se lembre mais facilmente da última frase do que do resto do conteúdo desse texto).
Novidade e interatividade podem estimular a cognição, além de tornar o aprendizado mais interessante. Sabendo disso, professores podem aumentar a eficiência de suas aulas, oferecendo aos alunos elementos que os surpreendam, como uma forma de preparar seu cérebro para assimilar novas informações. Quem sabe se ao invés de descrever um evento ou hipóteses, o professor poderia também fazer o aluno vivenciar o conhecimento. É aqui onde o RPG Educacional encontra um espaço, possibilitando o aumento da quantidade de experiências emocionais envolvidas no processo.
- Maiores Informações:
http://www.ceticismoaberto.com/ciencia/2146/experincia-no-algo-que-sentimos-e-sim-algo-que-fazemos

